- O branco. Mais branco. Branco. A claridade me sufoca.
Ela se revirava na cama, se revirava no chão, esmurrava as portas. Fazia meses que havia sido esquecida, nenhuma visita, nem mosquitos vagavam mais dentro do seu quarto. Branco. Vazio. Claro.
Ouvia passos no corredor, portas abrindo, pessoas gritando, chorando, morrendo. A porta de seu quarto foi aberta, depois de longas semanas.
- Demorou para me achar.
- Pensei que você não queria ser achada.
Ele não era tão mais alto que ela, cabelos encaracolados, moreno, barba por fazer. Tinha um cheiro cítrico, uma cara criança assustada, um desejo de estar ali, mas sem saber o que fazer.
- Por um momento, meu amor, cheguei a acreditar que não queria me encontrar.
Ele encarava o chão por longos momentos, fitava o quarto, a janela, as unhas compridas da bela jovem de pele translucida, observou tudo, menos os olhos da mesma. Ela no entando, se deliciava com a coragem e o pavor do rapaz, que agora parecia mais perdido do que nunca.
- Jamais, moça minha, estou sempre à te procurar. - Tossiu algumas vezes, com um misto de insegurança e desconforto.
O quarto cheirava podridão, no canto, comidas estragas que nem foram tocadas, do outro canto a porta do banheiro, que dava acesso apenas para um vaso sanitário. A vida que ali habitava, não tinha ânsia de viver. Ali, não havia vida.
- Moço, parece um tanto desconfortavél. - Sua risada era alto e irritante - Sabe, eu tenho escrito um bocado, escrito na minha melhor forma.
- Me deixa ler?!
- Me leia
Ela delicadamente se levantou e com um movimento mais sutil ainda, foi retirando a camisola que deveria ser branca, mas no momento possuía um tom sujeira.
- Mas o que voc... AAAH!!!
Enquanto se despia, o corpo revelava marcas, palavras para ser mais exata. Os seios ficaram amostra, os textos misturados cintilavam.
- Ah! Esses humanos, fracos, animais, não conseguem ver a verdade sem fugir. Eu que sei o que é ser feliz. Eu sou a felicidade.
Ela dançava com um sorriso maniaco no rosto. Se sentou, começou a chorar. Os gritos retornaram.
- A claridade me sufoca. O branco. Branco. Arranquem meus olhos. Me arranquem daqui.
Do outro lado do Sanatório
- Doutor! A paciente do quarto 8 da ala C, acabou de ter um surto. Ela tentou arrancar os olhos, e seu corpo está cheio de marcar.
- Repita o procedimento rotineiro.
- Ok, doutor.
Na outra semana.
- Pai?! Papai, me leva para tomar um sorvete?
- Claro filha, vai querer de creme ou chocolate? Ja venho te buscar.
- Vou leva-lá para tomar sorvete.
- Tem certeza doutor? Ela teve um surto recente? Não é muito arriscado?
- Hoje, minha menina acordou com vontade de viver. 2 horas longe dessa loucura toda não irá lhe fazer mal, e eu carrego sempre sua medicação comigo.
De volta ao quarto
- Filha, vamos, hoje é dia de viv...
Parou.
Sua camisola presa nas barras da janela, envolviam o seu pescoço. Um corpo sem vida, no quarto da loucura.

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